Há um equívoco de
redução ao tentar conceituar o jornalismo a partir dos resultados que ele
apresenta. Primeiro porque nossa sociedade mistura conceito com julgamento passional.
Segundo porque não se compreende que jornal, tv, rádio, internet, e tudo isso
junto forma apenas uma pequena parte de uma ampla e complexa atividade social,
envolvida numa teia de interesses e objetivos.
Há muito o que se considerar sobre o antes e o depois desse fenômeno. Há várias categorias de análise que precisariam ser abordadas, como a condição econômica e política, o viéis ético-normativo, o caráter tecnológico, a participação humana na atividade, às relações de trabalho, entre outras, mas todas intersecionadas. É sobre este último ponto que me dedico neste espaço, mas focado apenas numa das pontas do processo: o jornalista profissional.
Depois de um período de quatro anos em uma universidade, onde teve oportunidades, às vezes não aproveitadas, de ler, discutir, experimentar e produzir sobre a profissão, chega ao mercado o jovem jornalista na esperança de que, ao conseguir trabalho, vai poder cumprir seu papel com qualidade social, mesmo já sendo sabedor dos grandes dilemas político-econômicos que impedem seu exercício pleno como jornalista.
Logo perceberá o jovem colega que às “condições objetivas” impostas pelo mercado são, na verdade, práticas subliminares anti-jornalísticas que estão, em certa medida, disfarçadas nos produtos midiáticos cotidianos e que muito dificilmente a sociedade perceberá a manipulação da realidade. Supondo que o jovem jornalista aceite passivamente as regras do jogo, que só beneficiam uma parte (que não é a dele e nem da sociedade), o resultado do seu trabalho será um grande faz de conta de jornalismo.
Em sociedade pequenas e de mentalidade atrasada como a de Sergipe, a condição de exercício do jornalismo como deveria ser é muito mais difícil, a começar pela quase inexistência de organizações profissionais de mídia. Que tipo de jornalismo será produzido num ambiente onde quase todo financiamento da atividade é do Estado, de grupos políticos partidários e econômicos, especialmente de construtoras e de rede comerciais? E quando esses interesses são exatamente os mesmos? Onde estaria o jornalismo?
Essa é a primeira e principal condição: a de supremacia totalizante dos interesses privados sob o jornalismo. Ela é central para compreender que o jornalista, mesmo apostando em boas intenções, não fará jornalismo de fato. No máximo, ele participará de uma cena no teatro social necessário em democracias de fachada como a nossa. Em outras palavras, essa condição político-econômica perversa para a maioria da sociedade terá impacto profundo e direto no conteúdo divulgado pela imprensa.
Como a mídia em sociedades pequenas como a nossa não são organizações profissionais, as realções de trabalho também são frágeis, precárias e quase escravagistas. A começar pelo pagamento de um dos menores piso salariais do País e de sofriveis condições de trabalho, o que obriga a muitos jornalistas a se submeter a uma rotina produtiva superficial e possível, a exercer várias jornadas de trabalho, a mergulhar em suspeitas assessorias de imprensa, a mendigar cargos comissionados em órgãos públicos, etc, etc, etc. Pior é que esse quadro é tão natural que se torna normal, ou seja, não é percebida como uma aberração.
Nesse ambiente, dominado essencialmente por pressões político-econômicas e, mais recentemente, por permanentes constragimentos político-judiciais, que qualidade de cobertura jornalística será produzida? Mesmo em temáticas em que não teriam realções diretas com os interesses dos grupos privados que dominam o Estado, a cobertura dos fatos ficará presa às limitações da atual rotina produtiva, que também são claramente anti-jornalísiticas. Se o assunto possibilitar chegar próximo, mesmo que indiretamente, aos interesses do poder e dos meios, a cobertura será muda, inexistente.
É preciso fazer justiça a jornalistas não aceitam passivamente as regras desse jogo e acabam pagando caro as consequências dessa opção. Outros, até estão inseridos nesse ciclo de faz de conta e, quando podem, tentam burlar a lista dos temas, abordagens e pessoas intocáveis que povoam as redações. Porém, dificilmente fará qualquer reportagem que possa envolver figurões do empresariado ou da política com exploração sexual, por exemplo. A questão não é a cobertura jornalística, mas acobertura de classe.
O duro é assistir jovens e nem tão jovens jornalistas assim assumir como suas práticas sociais inversas ao interesse público, ao direito à informação, aos valores e a dignidade da pessoa humana, tudo para atender aos interesses de grupos político-econômicos, que não são os seus. Alguns jornalistas buscam se iludir com o recebimento de minos, de convites para festas, de cafés ou almoços, de favores e jeitinhos, migalhas de uma corrupção tácita que de tão comum se torna naturalizada.
Nunca é demais lembrar do que diz o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Para nós, o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental de todos. Não podemos abrir mão do princípio de que a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas.
É dever do jornalista se opor ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; lutar pela liberdade de pensamento e de expressão; combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação; defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias; combater toda e qualquer prática de perseguição ou discriminação.
A condição da existência do jornalismo é o estabelecimento de uma prática cotidiana crítica diante dos fatos, fundada a partir de sólidos princípios éticos conjugados, como a busca e a publicação da verdade dos fatos, doa a quem doer; a supermacia do interesse coletivo em benefício de todos; e o rigoroso respeito à diversidade e dignidade humana. Utópico ou não, o jornalismo e o jornalistas só têm sentido se, efetivamente, poderem contribuir para a construção de um outro patamar de sociedade, onde a justiça social, a liberdade e a solidariedade sejam alguns dos seus alicerces.
* Jornalista profissional, mestrando em Comunicação UFS. É colunista na Infonet. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe. Contato: cristiangoes_brasil@yahoo.com.br
Há muito o que se considerar sobre o antes e o depois desse fenômeno. Há várias categorias de análise que precisariam ser abordadas, como a condição econômica e política, o viéis ético-normativo, o caráter tecnológico, a participação humana na atividade, às relações de trabalho, entre outras, mas todas intersecionadas. É sobre este último ponto que me dedico neste espaço, mas focado apenas numa das pontas do processo: o jornalista profissional.
Depois de um período de quatro anos em uma universidade, onde teve oportunidades, às vezes não aproveitadas, de ler, discutir, experimentar e produzir sobre a profissão, chega ao mercado o jovem jornalista na esperança de que, ao conseguir trabalho, vai poder cumprir seu papel com qualidade social, mesmo já sendo sabedor dos grandes dilemas político-econômicos que impedem seu exercício pleno como jornalista.
Logo perceberá o jovem colega que às “condições objetivas” impostas pelo mercado são, na verdade, práticas subliminares anti-jornalísticas que estão, em certa medida, disfarçadas nos produtos midiáticos cotidianos e que muito dificilmente a sociedade perceberá a manipulação da realidade. Supondo que o jovem jornalista aceite passivamente as regras do jogo, que só beneficiam uma parte (que não é a dele e nem da sociedade), o resultado do seu trabalho será um grande faz de conta de jornalismo.
Em sociedade pequenas e de mentalidade atrasada como a de Sergipe, a condição de exercício do jornalismo como deveria ser é muito mais difícil, a começar pela quase inexistência de organizações profissionais de mídia. Que tipo de jornalismo será produzido num ambiente onde quase todo financiamento da atividade é do Estado, de grupos políticos partidários e econômicos, especialmente de construtoras e de rede comerciais? E quando esses interesses são exatamente os mesmos? Onde estaria o jornalismo?
Essa é a primeira e principal condição: a de supremacia totalizante dos interesses privados sob o jornalismo. Ela é central para compreender que o jornalista, mesmo apostando em boas intenções, não fará jornalismo de fato. No máximo, ele participará de uma cena no teatro social necessário em democracias de fachada como a nossa. Em outras palavras, essa condição político-econômica perversa para a maioria da sociedade terá impacto profundo e direto no conteúdo divulgado pela imprensa.
Como a mídia em sociedades pequenas como a nossa não são organizações profissionais, as realções de trabalho também são frágeis, precárias e quase escravagistas. A começar pelo pagamento de um dos menores piso salariais do País e de sofriveis condições de trabalho, o que obriga a muitos jornalistas a se submeter a uma rotina produtiva superficial e possível, a exercer várias jornadas de trabalho, a mergulhar em suspeitas assessorias de imprensa, a mendigar cargos comissionados em órgãos públicos, etc, etc, etc. Pior é que esse quadro é tão natural que se torna normal, ou seja, não é percebida como uma aberração.
Nesse ambiente, dominado essencialmente por pressões político-econômicas e, mais recentemente, por permanentes constragimentos político-judiciais, que qualidade de cobertura jornalística será produzida? Mesmo em temáticas em que não teriam realções diretas com os interesses dos grupos privados que dominam o Estado, a cobertura dos fatos ficará presa às limitações da atual rotina produtiva, que também são claramente anti-jornalísiticas. Se o assunto possibilitar chegar próximo, mesmo que indiretamente, aos interesses do poder e dos meios, a cobertura será muda, inexistente.
É preciso fazer justiça a jornalistas não aceitam passivamente as regras desse jogo e acabam pagando caro as consequências dessa opção. Outros, até estão inseridos nesse ciclo de faz de conta e, quando podem, tentam burlar a lista dos temas, abordagens e pessoas intocáveis que povoam as redações. Porém, dificilmente fará qualquer reportagem que possa envolver figurões do empresariado ou da política com exploração sexual, por exemplo. A questão não é a cobertura jornalística, mas acobertura de classe.
O duro é assistir jovens e nem tão jovens jornalistas assim assumir como suas práticas sociais inversas ao interesse público, ao direito à informação, aos valores e a dignidade da pessoa humana, tudo para atender aos interesses de grupos político-econômicos, que não são os seus. Alguns jornalistas buscam se iludir com o recebimento de minos, de convites para festas, de cafés ou almoços, de favores e jeitinhos, migalhas de uma corrupção tácita que de tão comum se torna naturalizada.
Nunca é demais lembrar do que diz o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Para nós, o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental de todos. Não podemos abrir mão do princípio de que a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas.
É dever do jornalista se opor ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; lutar pela liberdade de pensamento e de expressão; combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação; defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias; combater toda e qualquer prática de perseguição ou discriminação.
A condição da existência do jornalismo é o estabelecimento de uma prática cotidiana crítica diante dos fatos, fundada a partir de sólidos princípios éticos conjugados, como a busca e a publicação da verdade dos fatos, doa a quem doer; a supermacia do interesse coletivo em benefício de todos; e o rigoroso respeito à diversidade e dignidade humana. Utópico ou não, o jornalismo e o jornalistas só têm sentido se, efetivamente, poderem contribuir para a construção de um outro patamar de sociedade, onde a justiça social, a liberdade e a solidariedade sejam alguns dos seus alicerces.
* Jornalista profissional, mestrando em Comunicação UFS. É colunista na Infonet. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe. Contato: cristiangoes_brasil@yahoo.com.br
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